Caí, sem aviso, na armadilha de ouvir Adele enquanto a minha vida se desfazia em uma despedida. É engraçado como a gente se julga forte, talvez invencível, até que as primeiras notas de um piano nos despem por completo. São letras carregadas de um amor que dói e de uma tristeza que, curiosamente, nos faz companhia.
Ninguém nos ensina a terminar. Ninguém nos prepara para o silêncio que fica depois que a porta fecha. Essa « sofrência » não é algo que se manda embora; é um hóspede indesejado que nos obriga a olhar no espelho sem filtros. Quanto mais tentamos fugir, criando ruídos para não ouvir o nosso próprio vazio, mais cedo o destino nos coloca frente a frente com o balanço do que fomos — o bom, o mau e o que negligenciamos.
No fundo, acho que não buscamos grandes respostas. Talvez só queiramos o que nos acalmava na infância: um abraço que nos segure antes de cairmos, um afago sem pressa, um copo de leite e a certeza de que alguém está ali.
Crescer dói. É um processo de desaprendizado constante. De repente, você não está apenas pagando contas; você está aprendendo a sobreviver à ausência, às traições e às injustiças que a vida despeja sem aviso. E o pior: não há escudo que funcione. Se você se fecha, a vida para de acontecer; se você se abre, ela te testa até o limite. Como Adele diz em sua conversa com Oprah: às vezes é preciso « divorciar-se de si mesmo » para encontrar quem realmente somos sob os escombros [19:41].
Nesse deserto, a lei da atração é implacável: acabamos cruzando com outras almas feridas. E, por mais que pareça cinismo, há algo de tragicamente humano em ver como todos nós criamos « soluções perfeitas ». Dizemos que estamos vacinados, que o coração agora é de pedra, que nunca mais cairemos no erro de confiar. Criamos armaduras de vidro achando que são de aço.
Quanta ingenuidade a nossa. Somos tão frágeis que até o mais bruto dos homens pode ser desarmado por um sussurro de atenção. Porque o amor — mesmo o imperfeito, mesmo o que nos quebra — ainda é a única força capaz de mover as montanhas que construímos ao redor de nós mesmos.
No fim, não se trata de controlar o coração, mas de ter a coragem de Adele: a coragem de desmoronar em público para, finalmente, conseguir se reconstruir de verdade.



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